A Teoria dos Memes

A Teoria dos Memes

A Teoria dos Memes


O conceito de memes pode ser resumido como toda ideia que é copiada ou imitada, e que se espalha com muita facilidade entre as pessoas. Eles se reproduzem como material genético, pois precisam conquistar o maior número possível de portadores para continuarem existindo.

A cor de seus olhos, da sua pele e do seu cabelo, como tantas outras características, fazem de você um sujeito único. Elas foram determinadas pelos seus genes através de séculos de seleção natural. O córtex cerebral superdesenvolvido que permite a você ler este texto, por exemplo, foi fabricado a partir de instruções do DNA. Os genes, porém, não têm nada a dizer sobre qual é o seu time de coração, a estação de rádio que você costuma sintonizar, o partido político em que você vota, e a igreja que você frequenta. Essa é a sua inalienável margem de liberdade.

Ou não? E se gosto musical, religião, ideologia política – tudo o que você percebe como produto de suas escolhas individuais – forem na verdade resultado de uma espécie de vírus mental? Alguns cientistas e filósofos darwinistas estão propondo exatamente isso: do mesmo modo como os genes buscam produzir cópias de si mesmos de uma geração para a outra, as ideias competem entre si para dominar o maior número possível de cérebros. Sejam grandes convicções ou pequenos caprichos, as ideias, segundo esse ponto de vista, não são objeto de sua escolha consciente. São transmitidas por contágio.

O tal vírus da mente tem um nome técnico: meme. Aliás, pelo bem da precisão, no parágrafo acima, a palavra “ideia” deve ser substituída sempre por “meme”. Já existe até uma disciplina científica devotada ao estudo teórico dos memes: a memética.

Para entender o que é um meme, temos de remontar ao seu modelo biológico, o gene. O termo “meme” foi proposto pelo zoólogo Richard Dawkins, da Universidade de Oxford, em seu livro de 1976, O Gene Egoísta. Na maior parte do livro, Dawkins dedica-se a traduzir para o público não especializado os conceitos fundamentais da biologia evolucionista. O objetivo principal era ensinar o leitor a adotar o “ponto de vista do gene”. De geração a geração, os genes são conservados ou descartados pela seleção natural. Essas seções de DNA têm um objetivo único: replicar-se, ou seja, criar cópias de si mesmas. Nós, seres vivos, somos robôs, meros veículos transitórios de uma preciosa carga genética que nos foi legada por incontáveis gerações de outros veículos e que será passada adiante para nossos descendentes se tivermos sucesso como reprodutores.

O livro busca demonstrar que o princípio básico do darwinismo, a seleção natural, não precisaria se restringir aos genes, mas poderia ser estendido a qualquer outra situação em que unidades replicadoras disputam entre si pela oportunidade de fazer o grande salto de uma geração à outra. Dawkins propôs a palavra “meme” para designar essa nova entidade. O termo vem do grego mimeme (imitação), reduzido a duas sílabas para que soasse parecido com “gene”.

O conceito de meme é bastante amplo, incluindo hábitos, superstições, crenças, doutrinas, teorias – em suma, qualquer representação mental que dependa dos limitados recursos do cérebro humano para sobreviver e se difundir. “É possível que existam centenas, milhares de memes em nossos cérebros, competindo o tempo todo para determinar aquilo que fazemos”, afirma Robert Aunger, antropólogo darwinista da Universidade de Cambridge. Tudo o que é ensinado ou transmitido socialmente pode ser um meme.

A fórmula da relatividade (E=mc2) e o logotipo da Coca-Cola, os quartetos de Beethoven e a eguinha Pocotó, os sonetos de Camões e as piadas do Casseta & Planeta são todos memes. Na visão dos memeticistas mais radicais, tudo o que não está codificado nos nossos genes deverá ser atribuído aos memes. Fome e desejo sexual são impulsos fisiológicos e, portanto, não se enquadram no campo de estudo da memética. Mas o Big Mac e a lingerie da Victoria’s Secret são, sim, exemplos de memes. Como ícones culturais, são passados de uma pessoa para outra – individualmente ou pelos meios de comunicação de massa – e competem com outros memes para determinar nosso comportamento.

Seja lá o que constitua um meme, o conceito coloca em xeque a noção convencional que temos de nós mesmos, de nossa consciência e de nossa liberdade. A memética parece sugerir que nós não utilizamos a informação que circula pelos nossos meios de comunicação. Pelo contrário, nós é que serviríamos aos desígnios expansivos da informação. Na frase inspirada do filósofo darwinista Daniel Dennett: “Um acadêmico é apenas o meio que uma biblioteca utiliza para produzir outra biblioteca”. A idéia de livre-arbítrio não é muito popular entre memeticistas. “A expressão ‘livre-arbítrio’ não me agrada muito. Acredito que qualquer fenômeno, inclusive nosso pensamento, remonta a alguma causa física”, diz Aunger. Ou seja, se tivéssemos meios de medir precisamente todas as relações complexas que têm lugar no cérebro de um sujeito em determinado momento, seríamos capazes de prever que pensamento ele terá no momento seguinte.

A despeito da origem da palavra, o meme talvez seja mais comparável ao vírus do que ao gene. A memética muitas vezes parece uma teoria epidemiológica da cultura, buscando explicar como determinadas crenças ou comportamentos conseguem contagiar grandes grupos. Assim como o vírus é capaz de parasitar nosso DNA para produzir cópias de si mesmo, os memes são parasitas cerebrais. Invadem nossa mente e alteram nosso comportamento, que a partir de então passa a contagiar outras mentes. A moda e certas febres de consumo são talvez o exemplo mais evidente desse processo. Um garoto aparece com um ioiô ou um tamagotchi no recreio e em poucos dias todos na escola estão brincando com o mesmo artefato. Os memes só são possíveis entre os humanos devido a nossa natural habilidade para a imitação.

Memes não são selecionados pelo seu valor de verdade. Quando um memeticista diz que determinado meme é bom ou apto, isso não significa que ele seja moralmente aceitável ou cientificamente correto. Significa apenas que ele teve sucesso infectando um grande número de mentes. Muitos memes de sucesso são simplesmente inócuos, como aquela carinha sorridente que muita gente gosta de colocar em seus e-mails. Em casos extremos, porém, um meme pode até mesmo levar seu portador à morte. Tal é o caso das seitas suicidas, como a do reverendo Jim Jones ou a Ordem do Templo Solar. É claro que ao levarem seus portadores ao suicídio, esses memes também diminuem suas próprias oportunidades de propagação. Serão, portanto, memes muito raros – assim como são raros os genes que produzem doenças fatais como a distrofia muscular ou a fibrose cística.

Hipótese Ousada

A memética reconhece, é claro, a importância primordial dos genes. Afinal, foram eles que desenharam nosso cérebro avantajado. Vale lembrar que os genes não são capazes de aprender, de mudar a programação que eles impõem a um organismo. Alguns mecanismos relativamente simples de estímulo e resposta podem ser geneticamente programados. Uma ameba tem um repertório limitado de respostas ao ambiente – por exemplo, ela se retrai quando sua membrana celular é “espetada” por uma agulha microscópica. Seres mais complexos, porém, vivem em ambientes igualmente complexos. Os genes não têm meios de “saber” que perigos ou oportunidades vão se apresentar ao longo da vida de uma ave ou de um mamífero. Essa é a grande vantagem adaptativa do cérebro: ele permite que um ser vivo responda de forma imediata quando um novo predador aparece em seu hábitat ou quando um ônibus corta a sua frente no trânsito.

Ao delegar poder ao cérebro, isto é, ao desistir de programar de antemão todo o comportamento de um organismo, os genes abriram a porta para que um novo replicador entrasse em cena. É então que aparece o meme. Os interesses de memes e genes, aliás, nem sempre são coincidentes. O meme do controle da natalidade, por exemplo, colide com o interesse principal dos genes, que é criar o maior número possível de cópias de si mesmo, por meio da reprodução.

Memes na Internet

Na sua forma mais básica, um Meme de Internet é simplesmente uma ideia que é propagada através da World Wide Web. Esta ideia pode assumir a forma de um hiperlink, vídeo, imagem, website, hashtag, ou mesmo apenas uma palavra ou frase. Este meme pode se espalhar de pessoa para pessoa através das redes sociais, blogs, e-mail direto, fontes de notícias e outros serviços baseados na web tornando-se geralmente viral.

Um meme de Internet pode permanecer o mesmo, ou pode evoluir ao longo do tempo, por acaso ou por meio de comentários, imitações ou paródias. Eles podem evoluir e se espalhar muito rapidamente, chegando às vezes a popularidade mundial e depois ao desaparecendo em poucos dias. Eles são distribuídos de forma orgânica, voluntariamente, e peer-to-peer, ao invés de por meio pré-determinado ou automatizado.

A comunidade da Internet tem cultivado métodos para estimular a geração e a divulgação de memes. Seu rápido crescimento e impacto chamou a atenção dos pesquisadores e empresas. Diversos profissionais têm abraçado os memes da Internet como opção de marketing viral ou de guerrilha, devido a sua excelente relação custo-benefício. Eles, por exemplo, usam memes na Internet para gerar interesse por filmes que não tenham potencial de publicidade positiva entre os críticos. O filme de 2006 Snakes on a Plane conseguiu muita publicidade através deste método.

Os memes podem ser de vários tipos, como um desenho, geralmente em preto e branco. Alguns são caricaturas como o Trollface, homens palitos como o Fuck Yeah, ou são uma fotografia transformada em desenho como o Are You Serious Face. Também podem estar no formato de frase ou trocadilho, geralmente acompanhado de uma foto ou desenho.

Hoje, é muito comum se deparar com uma foto do personagem Chapolin Colorado acompanhada de uma frase de efeito, ou com uma tosca montagem de um corpo humano com cabeça de bode, brincando com a cultura nordestina. Essas imagens (memes) são compartilhadas e curtidas por milhares de pessoas, tornando-se uma febre no Facebook, Twitter ou Instagram. Mais de um milhão e meio de pessoas já curtiram a página do personagem Bode Gaiato, no Facebook. O mesmo acontece com Chapolin Sincero (próximo dos 2 milhões de likes), Divas da Depressão (170 mil curtidas), e Hipsters da Capital (cerca de 15 mil seguidores).

Dan Dennett Fala Sobre Memes Perigosos
Palestra TED – Filmado em Fevereiro de 2002 – Duração: 15:31

Dan Dennett Fala Sobre Memes Perigosos



Começando com o simples caso de uma formiga, o filósofo Dan Dennett desencadeia um devastador bombardeio de ideias, construindo uma argumentação decisiva a favor da existência dos memes: conceitos que são literalmente vivos.


Bibliografia:

O DNA das Idéias – Jerônimo Teixeira – Revista Super Interessante – Setembro de 2003


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